Indústria cultural e novas tecnologias: mudança de paradigmas

Juliana Farias - [juli.farias@yahoo.com.br]

Pirataria. Receptáculo de idéias. Democratização do conhecimento e de sua produção. Esses foram alguns dos temas discutidos em entrevista com Alexandre Curtiss - professor dr. do Departamento de Comunicação Social da Ufes e coordenador do Grupo de Estudos Audiovisuais (Grav).

No capitalismo cognitivo é possível se manter somente como “receptáculo de idéias”? O processo de democratização dos meios de comunicação não precisa ser reavaliado. Uma das discussões feitas por Maurizio Lazzarato, no seminário O Comum, que aconteceu entre os dias 21 e 25 de maio de 2007, é que não basta ter acesso ao conhecimento já existente e às ferramentas (computadores, internet). É fundamental participar do processo de produção.

Você concorda com a afirmação? Por quê?

Alexandre Curtiss: Sempre é possível ser apenas “receptáculo de idéias”. É um lugar do processo de comunicação. Ele é pacífico, conformista, calculado e tem pânico de qualquer esforço, sofrimento, risco. Portanto é ainda muito procurado e bem sucedido.

Concordo com a afirmação de Lazzarato sobre não bastar ter acesso à informação, ao conhecimento (na verdade, aos instrumentos de acesso). 

Por exemplo, quem faz trabalho de universidade “copiando e colando” textos de internet não está produzindo nada além de uma colagem (dadaísta? – nem isso, posto que inconsciente até disso).   Na minha visão, para se considerar participante dos processos de produção de conhecimento, é preciso ser crítico, em alguma medida, do que se defronta. Seja para defender o mundo tal como está, seja para tentar transformá-lo.

Colher apenas as informações disponíveis – estas beirando o infinito – não significa ciência de sentido nelas e à partir delas.

No caso da música, por exemplo, quais as formas do artista ter retorno financeiro do seu trabalho se as músicas são “baixadas” livremente?

Alexandre Curtiss: O artista, nestes casos, é o de menos. No esquema de gravadoras, quem tem retorno financeiro são as gravadoras e, muito raramente, “os artistas”. A porcentagem que hipoteticamente iria para eles, na maioria dos casos, é bem pequena.No mais, depende muito. Depende da abrangência geográfica e do recorte mercadológico pretendido pelo artista em questão. Boa parte da cultura e da arte popular vive e sobrevive além gravadoras – que nem sabem que existem esses artistas (Hermano Viana escreve frequentemente sobre isso).

As novas tecnologias tendem a alterar as relações comerciais, produtivas e de distribuição dos produtos culturais. 

Produção Cultural x Pirataria

No artigo que li, recentemente, do Hermano Viana ele faz a seguinte afirmação:

Os artistas não vivem da venda dos CDs, de resto pirateados e vendidos pelos camelôs.

Viana fala da realidade de Belém do Pará e do Maranhão. As gravadoras vendem 30 mil CDs e os camelôs mais de 300 mil. Há artistas que as gravadoras nem tomam conhecimento.

Essa venda pirata faz a fama do artista, que passa a ser procurado por rádios e, principalmente, para shows e é daí que eles tiram seu sustento.

Ele sugere que houve uma segmentação, não apenas do “gosto” das pessoas, mas dos poderes da indústria da cultura de massa. Uma “horizontalização”. Onde antes imperava a gravadora e sua vontade, agora imperam mais (no mínimo) 3 personagens: na hora das gravações, os estúdios e as gravadoras; na circulação, os camelôs; na produção e na criação, os músicos.

O fato é que as novas tecnologias baratearam horrorosamente a feitura de um CD e as gravadoras não consideraram isso. Os gastos em cultura, hoje em dia, são da ordem de 60 a 80% para marketing e publicidade. Portanto, o produto em si é barato . 

Sei dessa porcentagem para filmes hollywoodianos, em que os gastos em publicidade superam os gastos de feitura do filme concretamente. E isso porque não entrei sequer na discussão sobre o fato de cultura ser um bem social, um bem coletivo. Indo por aí, implicaria um reordenamento geral do mundo da cultura. Daí que pode ser possível pagar ao artista o trabalho, mas não cada audição.

Vou fazer uma festa junina voluntária na creche de meu filho (hipoteticamente) e tenho que “pagar direitos de propriedade intelectual“. Porque vou botar música?

Logo,  se o artista quiser “retorno financeiro” como princípio de sua atividade, sugiro que mude de ramo e vire banqueiro.

Dinheiro existe é nos bancos.

A mídia se esbalda ao mostrar a meia dúzia de milionários dos diferentes ramos da vida. O mundo não é deles. Eles são exceção. Para cada “artista milionário” existem milhares “normais”. Eles sequer são exemplos. Muda-se a lógica econômica e eles desabam na sua desimportância enquanto artistas, boa parte dos quais – os que ainda hoje estudamos nas diversas histórias das artes – sempre viveram muito mais próximo do considerado “normal”.

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